Poucos dias antes do decreto de lockdown da pandemia, uma paciente me ligou com receio da Covid-19 e me fez um pedido inédito até então: fazer o atendimento pelo WhatsApp. Eu nunca havia feito um atendimento online. Para ser bem sincera, não achava confortável e duvidava, até certo ponto, da funcionalidade daquele formato. Afinal, como sustentar a profundidade da escuta fora do setting terapêutico que eu havia escolhido a dedo, com tanto cuidado, como o local adequado para o acolhimento?
A realidade nos impôs a tela, e o que era uma exceção temporária revelou-se um espaço possível e surpreendentemente rico. O atendimento online rompeu fronteiras geográficas e trouxe uma flexibilidade valiosa para a vida moderna. Hoje, a psicoterapia tornou-se acessível de qualquer lugar.
O desafio da transição no atendimento psicológico online
No entanto, essa aparente facilidade traz um desafio sutil, mas fundamental: a diferença na transição.
Quando você opta pela terapia presencial, há um ritual físico. O ato de sair de casa ou do trabalho, o trajeto até o consultório, o tempo no trânsito… tudo isso funciona como um espaço de transição. É o tempo que a mente precisa para se desligar do cotidiano e se preparar para falar de si. E, na volta, o caminho serve para digerir o que foi dito.
No atendimento online, esse contorno quase desaparece. Às vezes, o processo se resume a fechar a tela do celular ou do computador e ir direto lavar a louça, responder um e-mail de trabalho ou cuidar dos filhos. O silêncio que ajuda a elaborar a sessão acaba sendo engolido pelo ritmo imediato da casa.
Como se preparar para fazer terapia online com privacidade?
Por isso, para que a psicoterapia online funcione e mantenha a mesma dignidade do consultório, algumas “regras” invisíveis precisam ser sustentadas pelo próprio paciente. Não se trata de uma fórmula, mas de criar as condições para a fala circular:
- A busca pela privacidade e sigilo: O espaço precisa ser absolutamente reservado. Pode ser um quarto isolado, um escritório ou até o carro estacionado. O importante é a garantia interna de que ninguém estará ouvindo, para que você possa chorar, silenciar ou falar sem amarras.
- A construção de um cenário confortável: Não faça terapia deitado na cama de pijama ou no meio de uma tarefa doméstica. Sente-se de forma confortável, use fones de ouvido (eles ajudam a isolar o som e criam um ambiente de intimidade com a voz) e garanta uma boa conexão.
- O tempo de transição: Tente se dar cinco ou dez minutos de silêncio antes de ligar a câmera e depois que a sessão cair. Não passe direto do caos do dia para a terapia, nem da terapia direto para a louça. Respeite o tempo que o seu inconsciente precisa para assentar o que foi vivido.
Psicólogo em Porto Alegre: presencial ou online, qual escolher?
Seja no olho no olho do presencial, sentindo o movimento de ir ao encontro do profissional, seja no acolhimento de uma tela que encurta distâncias, a essência permanece a mesma: a busca por um lugar onde a sua história real possa ser escutada sem pressa. O melhor formato será sempre aquele que faz sentido para o seu momento de vida e que permite que o seu processo de revelação aconteça.
Patrícia Rocha
Psicóloga — CRP 07/6944
Atendimento Presencial no Menino Deus (Porto Alegre) e Atendimento Online.